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Uso da fé como ‘muleta’ emocional prejudica e engana o espiritual

Nem toda prática voltada ao bem-estar produz os efeitos desejados. Em certos casos, o que se apresenta como cuidado pode, na verdade, dificultar o enfrentamento de conflitos emocionais. Esse fenômeno, conhecido como spiritual bypassing — ou desvio espiritual — tem ganhado atenção de especialistas que investigam o uso da fé e de práticas espirituais como mecanismo de esquiva diante de dores internas, especialmente em situações de esgotamento extremo.

A psicóloga Gabriela Picciotto, doutora em Psicologia, dedica-se ao estudo do tema e também passou por uma experiência de burnout que a levou a repensar sua própria trajetória.

A vivência pessoal deu origem ao livro “Voz da Alma”, no qual propõe um caminho de reconexão interior aliado à vida prática. A obra parte da premissa de que existe uma sabedoria silenciosa em cada indivíduo, mas que frequentemente é ignorada em meio à correria do dia a dia.

Espiritualidade como Apoio, Não como Refúgio

Segundo a autora, é fundamental distinguir entre autocuidado genuíno e fuga emocional. O excesso de otimismo, por exemplo, pode funcionar como um paliativo que mascara problemas e retarda processos de recuperação.

Diante de sentimentos difíceis, algumas pessoas recorrem a discursos de positividade incondicional ou a práticas espirituais como forma de evitar o desconforto — um movimento que, embora aparentemente inofensivo, pode comprometer a saúde emocional a longo prazo.

Gabriela defende que a espiritualidade deve servir como ferramenta para lidar com a realidade, e não como um meio de negá-la. No livro, ela apresenta exercícios práticos voltados à escuta interior, ajudando o leitor a identificar a diferença entre o que chama de “voz do ego” e “voz da alma”. Entre as ferramentas propostas estão práticas de escrita reflexiva que auxiliam no reconhecimento de padrões repetitivos e crenças limitantes.

A Origem do Trabalho e a Proposta de Transformação

A ideia para o livro surgiu após a autora vivenciar um esgotamento profissional aos 33 anos. O episódio a levou a revisitar padrões pessoais e profissionais que até então passavam despercebidos. Experiências familiares e afetivas também contribuíram para aprofundar sua pesquisa sobre identidade e valor pessoal, temas que hoje orientam sua atuação.

Com mais de 19 anos de experiência em desenvolvimento humano, Gabriela busca integrar psicologia e espiritualidade em ações simples do cotidiano. O livro é direcionado a pessoas que enfrentam rotinas intensas e sentem desconexão de si mesmas. A proposta central é incentivar escolhas mais conscientes e alinhadas com valores pessoais.

“Aprender a escutar essa voz interior é o primeiro passo para sair do piloto automático”, afirma a autora. A partir dessa escuta, o leitor é convidado a transformar intenções em atitudes concretas, fortalecendo autoestima e autenticidade. Com: Comunhão.

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