Análise de dados de 175 mil adultos mostrou que o sentimento de solidão está associado ao aumento do risco de comprometimento cognitivo
Por Cristiano Stefenoni
A solidão não é apenas uma questão emocional. Um novo estudo internacional sugere que o sentimento persistente de desconexão social pode trazer consequências significativas para a saúde cerebral e para a longevidade, especialmente entre pessoas com mais de 50 anos.
Publicada no periódico científico Journal of Personality and Social Psychology, a pesquisa analisou dados de cerca de 175 mil adultos mais velhos e concluiu que a solidão está associada a um risco maior de comprometimento cognitivo e a uma expectativa de vida menor, mesmo quando a pessoa não vive isolada socialmente.
O trabalho foi conduzido por uma equipe de 24 pesquisadores liderada por Tomiko Yoneda, professora assistente de psicologia da University of California, Davis, e por Eileen K. Graham, professora associada de ciências sociais médicas da Northwestern University.
Um dos pontos centrais da pesquisa é a distinção entre solidão e isolamento social. Enquanto o isolamento se refere à ausência ou escassez de contatos sociais, a solidão está relacionada à percepção subjetiva de desconexão. Em outras palavras, uma pessoa pode estar cercada de familiares, amigos ou colegas e ainda assim sentir-se sozinha.
Segundo os pesquisadores, essa diferença é fundamental porque os impactos observados sobre a saúde cognitiva foram mais fortemente associados à sensação de solidão do que ao isolamento social propriamente dito.
O que os pesquisadores descobriram
Para chegar às conclusões, os cientistas avaliaram informações de adultos com mais de 50 anos, acompanhando indicadores relacionados à cognição, à saúde e à mortalidade.
Os participantes relataram com que frequência se sentiam solitários e também com que frequência mantinham contato com outras pessoas.
A análise revelou que um aumento de 10% nos relatos de sentimentos de solidão esteve associado a um crescimento de aproximadamente 8% a 9% no risco de comprometimento cognitivo grave. Também foi observado um aumento na probabilidade de transição de um estado sem déficits cognitivos para quadros de comprometimento cognitivo leve.
Os autores destacam ainda que pessoas mais solitárias apresentaram maior tendência a avançar para estágios mais severos de declínio cognitivo e menor probabilidade de recuperação.
Impactos além da memória
Os resultados reforçam evidências crescentes de que a saúde social deve ser considerada um componente importante do envelhecimento saudável.
Além da associação com o declínio cognitivo, a solidão também esteve ligada a uma menor expectativa de vida. Os pesquisadores ressaltam que o sentimento de desconexão pode influenciar diversos mecanismos biológicos e comportamentais relacionados à saúde, incluindo níveis de estresse, qualidade do sono, hábitos de vida e saúde mental.
Embora o estudo não tenha sido projetado para estabelecer uma relação direta de causa e efeito, os achados sugerem que combater a solidão pode representar uma estratégia importante para preservar a saúde cerebral durante o envelhecimento.
Problema global
As conclusões ganham relevância em um contexto de crescente preocupação internacional com o tema. Em seu mais recente relatório sobre conexão social, a Organização Mundial da Saúde estima que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo enfrenta sentimentos de solidão.
A entidade tem alertado que a falta de conexões sociais significativas pode aumentar o risco de diversas doenças físicas e mentais, tornando-se um importante desafio de saúde pública para as próximas décadas.