Levantamento da FGV Direito SP aponta que homens brancos seguem recebendo mais recursos de campanha, enquanto mulheres negras permanecem entre os grupos mais prejudicados na distribuição das verbas eleitorais
Por Cristiano Stefenoni
O dinheiro continua sendo um dos fatores mais decisivos para o sucesso eleitoral no Brasil. E, embora as últimas reformas tenham buscado tornar a disputa mais equilibrada, um novo estudo da FGV Direito SP revela que homens brancos ainda recebem mais recursos para campanhas do que qualquer outro grupo de candidatos. A pesquisa reacende o debate sobre os obstáculos enfrentados por mulheres e pessoas negras para alcançar espaços de poder.
O levantamento, intitulado “Dinheiro, raça e eleições: uma análise do financiamento de candidaturas nas eleições municipais de 2024”, foi elaborado pelo Observatório Raça, Gênero e Representação Política da FGV Direito SP. Os pesquisadores analisaram dados oficiais das prestações de contas eleitorais para verificar como os recursos foram distribuídos entre candidatos de diferentes perfis raciais e de gênero.
Os resultados mostram que, mesmo após decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) determinarem a distribuição proporcional dos recursos públicos para candidaturas femininas e negras, a desigualdade permanece presente. Na prática, homens brancos continuam ocupando posição privilegiada na captação e no recebimento de verbas partidárias e eleitorais, enquanto mulheres negras figuram entre os grupos com menor acesso aos recursos disponíveis.
O estudo destaca que o financiamento eleitoral tem impacto direto sobre a competitividade das candidaturas. Quanto maior o volume de recursos, maiores são as possibilidades de investir em publicidade, equipes de campanha, produção de conteúdo digital, deslocamentos e estratégias de mobilização de eleitores. Por isso, diferenças na distribuição do dinheiro acabam se refletindo também nas chances reais de vitória nas urnas.
A pesquisa da FGV dialoga com análises anteriores realizadas pela própria instituição. Em um estudo que comparou as eleições municipais de 2016 e 2020, os pesquisadores identificaram uma mudança importante após a adoção das cotas raciais no financiamento eleitoral. Em 2016, homens brancos apresentavam índice de sobrefinanciamento de 1,278, enquanto mulheres negras registravam apenas 0,606, sendo o grupo mais prejudicado. Já em 2020, a distribuição tornou-se mais equilibrada, mas sem eliminar completamente as distorções históricas.
Os dados também revelam que houve crescimento da participação de mulheres negras entre as candidaturas. Elas representavam 14,3% dos candidatos em 2016 e passaram para cerca de 16,5% em 2020. Apesar disso, a presença nos cargos efetivamente conquistados continuou muito inferior ao peso desse grupo na população brasileira. Segundo a pesquisa, mulheres negras correspondiam a aproximadamente 25,4% da população, mas ocupavam apenas 6,27% das cadeiras de vereador conquistadas naquele pleito.
Especialistas observam que o problema não está apenas na quantidade de recursos recebidos, mas também na forma e no momento em que eles chegam às campanhas. Candidaturas que recebem verbas antecipadamente conseguem estruturar equipes, investir em comunicação e ampliar sua visibilidade. Já candidatos que recebem recursos tardiamente enfrentam maiores dificuldades para competir em igualdade de condições. Por isso, a Justiça Eleitoral passou a estabelecer prazos para a distribuição dos recursos destinados a mulheres e pessoas negras.
Outro aspecto destacado pela FGV é a lógica interna dos partidos. As siglas costumam direcionar mais recursos para candidatos considerados competitivos ou já conhecidos do eleitorado. Esse mecanismo tende a favorecer nomes tradicionais e dificulta a renovação política, afetando principalmente mulheres, negros e candidatos estreantes. Segundo os pesquisadores, compreender como os partidos definem suas prioridades financeiras é fundamental para avaliar os limites das atuais políticas de inclusão eleitoral.
A conclusão do estudo é que as regras de cotas produziram avanços importantes, mas ainda insuficientes para corrigir desigualdades estruturais construídas ao longo de décadas. O financiamento eleitoral tornou-se mais equilibrado do que no passado, porém continua reproduzindo diferenças de raça e gênero que influenciam quem consegue disputar eleições em condições competitivas e quem permanece à margem do sistema político brasileiro.