Mulheres e negros têm mais dificuldade de sair da pobreza

Atlas da Mobilidade Social mostra 65,12% das mulheres pobres permanecem na mesma faixa de renda, enfrentando desigualdades no Brasil

Por Cristiano Stefenoni

A origem familiar continua sendo um dos principais fatores que determinam o futuro econômico dos brasileiros. E, quando gênero e raça entram na equação, as oportunidades de ascensão social tornam-se ainda mais desiguais. É o que revela o Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab.

O levantamento mostra que mulheres e pessoas negras enfrentam obstáculos significativamente maiores para romper o ciclo da pobreza. Entre as mulheres que nasceram nos 25% das famílias mais pobres do Brasil, 65,12% permanecem na mesma faixa de renda quando chegam à vida adulta. Entre os homens nascidos na mesma condição, esse percentual cai para 32,95%.

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A distância também aparece quando se observa quem consegue alcançar o topo da distribuição de renda. Apenas 4,51% das mulheres oriundas dos 25% mais pobres conseguem chegar ao grupo dos 25% mais ricos. Entre os homens, esse índice é de 11,66%, mais que o dobro.

Escolaridade maior, renda menor

Um dos aspectos que mais chama atenção no estudo é que as mulheres, em média, apresentam níveis mais elevados de escolaridade. Elas concluem o ensino médio e o ensino superior em proporções superiores às dos homens. Ainda assim, esse investimento em educação não se traduz, na mesma intensidade, em melhores salários ou maior mobilidade econômica.

Segundo os pesquisadores, isso evidencia que a educação, embora essencial, não é suficiente para eliminar desigualdades estruturais presentes no mercado de trabalho brasileiro. Diferenças salariais, concentração feminina em ocupações menos valorizadas, interrupções na carreira relacionadas aos cuidados familiares e dificuldades de acesso a cargos de liderança continuam limitando o crescimento econômico das mulheres.

Raça amplia a desigualdade

O Atlas também evidencia o peso da desigualdade racial. Entre os jovens não brancos que nasceram nos 25% mais pobres da população, 51,64% permanecem na mesma condição econômica na vida adulta. Entre os jovens brancos, o percentual é significativamente menor: 36,32%.

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Quando gênero e raça são analisados simultaneamente, o cenário torna-se ainda mais preocupante. As mulheres não brancas aparecem como o grupo com menor mobilidade social de todo o levantamento, refletindo o efeito combinado das desigualdades históricas de acesso à educação de qualidade, saúde, emprego formal e remuneração.

A pobreza tende a se repetir

Os dados reforçam uma característica conhecida pelos pesquisadores da área: no Brasil, a renda dos pais continua exercendo forte influência sobre a renda dos filhos.

Em outras palavras, nascer em uma família pobre ainda reduz significativamente as chances de ascensão econômica, sobretudo para mulheres e pessoas negras. O Atlas demonstra que o país ainda apresenta baixa mobilidade intergeracional, isto é, a posição econômica de uma geração tende a ser reproduzida na seguinte.

Especialistas apontam que políticas públicas voltadas para educação infantil, qualificação profissional, inclusão produtiva, combate à discriminação e ampliação do acesso ao mercado formal de trabalho são fundamentais para reduzir essas diferenças ao longo do tempo.

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O que os números mostram

  • 65,12% das mulheres nascidas entre os 25% mais pobres continuam nessa faixa de renda na vida adulta. Entre os homens, o percentual é de 32,95%.
  • Apenas 4,51% dessas mulheres conseguem chegar ao grupo dos 25% mais ricos. Entre os homens, esse índice alcança 11,66%.
  • 51,64% dos jovens não brancos permanecem entre os 25% mais pobres na vida adulta. Entre os jovens brancos, o percentual é de 36,32%.
  • As mulheres não brancas apresentam a menor mobilidade social entre todos os grupos analisados.

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