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Estilista de MT faz bolsas com couro de pirarucu e entra em seleção global de moda da Vogue

Nascido em Sinop (MT), o designer Airon Martin foi escolhido pela Vogue para integrar a “Global Class of Emerging Designers”, seleção que reúne novos talentos apontados pelas diferentes edições internacionais da revista. Fundador da Misci, ele ganhou espaço na lista ao propor uma moda contemporânea construída a partir da cultura, dos materiais e das contradições do Brasil.

Bolsa produzida com couro de pirarucu integra as criações da Misci, marca fundada pelo estilista mato-grossense Airon Martin. – Foto: Arquivo pessoal

Criada em 2018 e baseada em São Paulo, a Misci aparece ao lado de marcas e designers da Europa, Ásia, Oriente Médio, Oceania e América Latina. Entre os nomes selecionados estão Shushu/Tong, da China; Post Archive Faction, da Coreia do Sul; Anthony Calydon, da França; Samuel Lewis, da Austrália; Lou de Bètoly, da Alemanha; e Ernesto Naranjo, da Espanha.

Em entrevista ao Primeira Página, Airon afirmou que recebeu a indicação como um reconhecimento do trabalho coletivo desenvolvido pela marca e da decisão de construir uma linguagem brasileira sem neutralizar as próprias origens.

“Não precisamos parecer menos brasileiros para sermos vistos internacionalmente. Pelo contrário”, afirmou.

Airon Martin cresceu no interior de Mato Grosso

Airon nasceu em Sinop, em uma região marcada pela proximidade com a Amazônia e pelas transformações econômicas provocadas pela transição da atividade madeireira para o agronegócio. Criado principalmente por mulheres, ele considera que a estrutura familiar e o cotidiano no interior influenciaram a maneira como passou a enxergar o Brasil.

Segundo o designer, crescer distante dos grandes centros permitiu que ele conhecesse primeiro um país formado por extensos territórios, diferentes culturas, cidades em rápida expansão e pessoas de diversas origens.

Da infância em Sinop à projeção internacional, Airon Martin levou as raízes mato-grossenses para a construção de sua identidade na moda. - Foto: Arquivo pessoal
Da infância em Sinop à projeção internacional, Airon Martin levou as raízes mato-grossenses para a construção de sua identidade na moda. – Foto: Arquivo pessoal

“Mato Grosso me colocou muito perto de um Brasil que, durante bastante tempo, esteve fora do imaginário tradicional da moda. O interior, a Amazônia, a estrada, as cidades que cresceram rapidamente, as mulheres que sustentam famílias inteiras e a mistura de origens. Tudo isso me interessa”, contou.

Essas referências não aparecem necessariamente de forma literal nas peças. Para Airon, Mato Grosso está presente na escala dos projetos, na relação com a natureza, nas memórias familiares e no olhar de quem saiu do interior e passou a circular por centros como São Paulo, Rio de Janeiro e Paris.

Airon Martin está à frente da direção criativa da Misci, marca fundada por ele em 2018 e baseada em São Paulo. - Foto: Arquivo pessoal
Airon Martin está à frente da direção criativa da Misci, marca fundada por ele em 2018 e baseada em São Paulo. – Foto: Arquivo pessoal

Da Medicina à criação da Misci

A moda não foi a primeira escolha profissional de Airon. Antes de ingressar no universo criativo, ele chegou a cursar Medicina em busca de uma carreira considerada mais segura. Posteriormente, passou a estudar Design de Produto e Serviço e encontrou uma possibilidade profissional ligada à criação.

Durante esse processo, trabalhou com o designer Paulo Alves, discípulo da arquiteta Lina Bo Bardi. A experiência ampliou o contato de Airon com arquitetura, mobiliário, materiais e diferentes interpretações sobre a identidade brasileira.

A Misci surgiu como trabalho de conclusão de curso. Inicialmente, o projeto funcionava como uma investigação sobre a identidade nacional, mas ganhou estrutura de marca em 2018.

“A marca foi construída aos poucos e de maneira muito independente. Não nasceu com uma grande estrutura ou investimento. Foi um processo de entender produto, formar uma equipe, encontrar fornecedores, construir uma cadeia de produção e, principalmente, entender qual Brasil eu queria apresentar”, explicou.

O nome Misci deriva de “miscigenação” e faz referência à mistura de povos e culturas que formou o país. Airon ressalta, porém, que esse processo histórico não deve ser romantizado.

Desfile da Misci no Sambódromo transformou o espaço em cenário para celebrar a cultura e a capacidade de invenção brasileira. - Foto: Arquivo pessoal
Desfile da Misci no Sambódromo transformou o espaço em cenário para celebrar a cultura e a capacidade de invenção brasileira. – Foto: Arquivo pessoal

Para ele, a identidade brasileira não pode ser resumida a uma única imagem. É justamente essa diversidade, com suas influências e contradições, que orienta a linguagem da marca.

Misci propõe uma moda que olha para o Brasil

A proposta de construir moda a partir do Brasil, sem apenas reproduzir referências estrangeiras, foi um dos aspectos destacados pela Vogue. Airon define esse posicionamento como uma decisão criativa e também política.

“Durante muito tempo fomos educados a entender que aquilo que vinha de fora era necessariamente mais sofisticado. Isso criou uma espécie de colonização do olhar. Quando comecei a construir a Misci, percebi que não fazia sentido estar no Brasil tentando reproduzir uma marca francesa ou italiana”, disse.

As referências brasileiras aparecem tanto nas peças quanto no processo criativo conduzido por Airon Martin na Misci. - Foto: Arquivo pessoal
As referências brasileiras aparecem tanto nas peças quanto no processo criativo conduzido por Airon Martin na Misci. – Foto: Arquivo pessoal

As criações combinam alfaiataria reinterpretada, recortes, novas silhuetas e elementos da estética urbana brasileira. O modernismo, o Carnaval, a arquitetura popular, a música, o cinema, a Amazônia e o mobiliário nacional também aparecem como fontes de pesquisa.

No caso do Carnaval, a inspiração ultrapassa a imagem da festa. Airon observa o evento como uma construção coletiva marcada pela capacidade de invenção e pela inteligência estética. Em um dos desfiles realizados no Sambódromo, a marca apresentou a frase “Nosso sonho não termina em fevereiro”.

Pirarucu e outros materiais brasileiros

A Misci também trabalha com jacquards desenvolvidos especialmente para a marca, algodão orgânico do Piauí, seda brasileira, fibras, técnicas artesanais e couro de pirarucu.

O peixe faz parte das lembranças de infância do designer, que cresceu consumindo pirarucu antes de imaginar que a pele do animal poderia ser utilizada como matéria-prima na moda.

Airon afirma que os materiais não são escolhidos apenas por serem brasileiros. Eles também precisam apresentar qualidade, inovação e coerência com o produto desenvolvido.

Calçados, bolsas e roupas fazem parte do universo criativo da Misci, que explora diferentes formas, texturas e materiais brasileiros. - Foto: Arquivo pessoal
Calçados de couro de pirarucu, bolsas e roupas a base de fibra de buriti fazem parte do universo criativo da Misci, que explora diferentes formas, texturas e materiais brasileiros. – Foto: Arquivo pessoal

“Prefiro falar de sustentabilidade a partir de decisões concretas, e não como discurso de marketing. Produzir localmente, conhecer fornecedores, trabalhar rastreabilidade, valorizar técnicas manuais e desenvolver materiais brasileiros são decisões que fazem parte da construção da marca”, explicou.

O designer reconhece que a indústria brasileira ainda enfrenta desafios relacionados à escala e à rastreabilidade. Ao mesmo tempo, avalia que o país possui materiais com potencial para receber maior desenvolvimento industrial e gerar produtos de alto valor agregado.

Bolsas da Misci ganharam reconhecimento

As bolsas estão entre os produtos mais reconhecidos da Misci no Brasil. Segundo Airon, as peças desenvolveram códigos próprios de design, materialidade e proporção, o que permite que sejam identificadas mesmo sem a exposição do logotipo.

As bolsas da Misci desenvolveram características próprias e estão entre os produtos mais reconhecidos da marca brasileira. - Foto: Arquivo pessoal
As bolsas da Misci desenvolveram características próprias e estão entre os produtos mais reconhecidos da marca brasileira. – Foto: Arquivo pessoal

Para o designer, o interesse pelas bolsas também demonstra que consumidores com acesso a marcas internacionais passaram a enxergar valor e desejo em produtos criados no país.

“Uma marca começa realmente a construir força quando você consegue reconhecer um produto sem precisar necessariamente ler o logo”, avaliou.

Reconhecimento internacional da Vogue

Airon recebeu a escolha para a “Global Class of Emerging Designers” como uma confirmação de que a Misci pode ampliar a presença internacional sem abandonar a identidade construída no Brasil.

Segundo ele, a seleção passou também pelo olhar da editora Anna Wintour e representa o trabalho de uma cadeia formada por funcionários, fornecedores, artesãos e parceiros envolvidos em cada coleção.

Criações da Misci apresentadas na passarela traduzem a pesquisa de Airon Martin sobre identidade e cultura brasileira. - Foto: Arquivo pessoal
Criações da Misci apresentadas na passarela traduzem a pesquisa de Airon Martin sobre identidade e cultura brasileira. – Foto: Arquivo pessoal

O designer afirma não ter a pretensão de representar sozinho um país tão diverso. A intenção é apresentar ao mercado internacional uma visão particular do Brasil, formada pelas próprias origens e pesquisas.

“Quero que alguém em Paris, Londres ou Nova York consiga olhar para a Misci e perceber que existe ali uma linguagem brasileira, mas que essa linguagem não seja caricata nem facilmente reduzida ao tropicalismo que historicamente esperam de nós”, disse.

Moda e agro começam no mesmo lugar

Embora esteja baseada em São Paulo, a Misci mantém uma relação direta com Mato Grosso. Para Airon, a proximidade entre moda e agro é maior do que costuma ser percebida, já que a cadeia de produção das roupas começa no campo.

“A moda começa no campo: começa no algodão, passa pelo couro, pelas fibras e pelas matérias-primas. Eu consigo falar a mesma língua do produtor e entender a origem de muitos dos materiais com que trabalhamos”, destacou.

O designer também desenvolve um projeto relacionado ao reflorestamento urbano de Sinop. A iniciativa, segundo ele, é uma forma de transformar a conexão com a cidade natal em ação, e não apenas em referência estética.

Misci planeja ampliar presença internacional

A internacionalização da Misci já passou da fase de planejamento e começa a avançar por meio de showrooms, imprensa, relações comerciais e projetos voltados ao mercado estrangeiro. Paris ocupa uma posição central nessa estratégia.

No Brasil, a marca pretende fortalecer a operação e, ao mesmo tempo, expandir a atuação para áreas que vão além do vestuário, como mobiliário, objetos, arquitetura, audiovisual e projetos culturais.

Airon Martin posa com uma das bolsas da Misci, produto que ganhou espaço entre as peças mais reconhecidas da marca. - Foto: Arquivo pessoal
Airon Martin posa com uma das bolsas da Misci, produto que ganhou espaço entre as peças mais reconhecidas da marca. – Foto: Arquivo pessoal

Airon considera que um dos principais desafios dessa nova etapa será crescer sem diluir a identidade da Misci ou reproduzir modelos estrangeiros.

“O objetivo é construir uma marca brasileira relevante internacionalmente sem precisar reproduzir um modelo estrangeiro para chegar lá. Quanto mais local você consegue ser, mais possibilidade tem de ser verdadeiramente global”, concluiu.

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