Pesquisa internacional identifica 11 regiões do DNA associadas ao transtorno de personalidade borderline e amplia a compreensão sobre suas causas
Por Cristiano Stefenoni
Durante décadas, o transtorno de personalidade borderline (TPB) foi explicado principalmente pela interação entre fatores ambientais, como traumas na infância, abuso, negligência e outras experiências adversas. Agora, um estudo internacional publicado na revista científica Nature Genetics mostra que a genética também desempenha um papel importante no desenvolvimento da condição.
Considerada a maior investigação genética já realizada sobre o transtorno de personalidade borderline, a pesquisa analisou dados de aproximadamente 13 mil pessoas diagnosticadas com a doença e mais de 1,1 milhão de indivíduos sem o transtorno, reunindo informações de participantes de 14 países.
Os pesquisadores identificaram 11 regiões do genoma humano associadas ao risco de desenvolver o TPB. Dentro ou próximas dessas regiões, foram encontrados nove genes considerados candidatos a influenciar o surgimento da condição.
A descoberta representa um marco para a psiquiatria porque, embora estudos anteriores já apontassem que o transtorno possuía um componente hereditário, esta é a primeira vez que uma pesquisa em larga escala consegue localizar regiões específicas do DNA relacionadas ao TPB.
Os autores ressaltam que os resultados não significam que o transtorno seja determinado apenas pela genética. Fatores ambientais continuam tendo papel fundamental, especialmente experiências traumáticas durante a infância e adolescência. A conclusão é que o TPB resulta da combinação entre predisposição genética e acontecimentos ao longo da vida.
Além das descobertas genéticas, o estudo revelou que o transtorno compartilha parte de sua base biológica com outras doenças psiquiátricas, como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Também foram observadas ligações com algumas condições físicas, reforçando a ideia de que a saúde mental e a saúde do organismo estão profundamente conectadas.
O transtorno de personalidade borderline é caracterizado por intensa instabilidade emocional, impulsividade, alterações rápidas de humor, medo persistente de abandono e dificuldades nos relacionamentos interpessoais. Os sintomas costumam surgir no início da vida adulta e podem comprometer significativamente a qualidade de vida quando não recebem tratamento adequado.
Estima-se que o TPB afete entre 1% e 2% da população, sendo diagnosticado com maior frequência em mulheres, embora especialistas discutam se essa diferença representa uma prevalência real ou esteja relacionada a fatores de diagnóstico.
Os pesquisadores acreditam que o mapeamento dessas regiões genéticas poderá contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais precisos no futuro. A identificação dos mecanismos biológicos envolvidos também pode ajudar na descoberta de novos medicamentos e no aperfeiçoamento das estratégias de prevenção, sempre considerando a interação entre predisposição genética e fatores ambientais.
Embora ainda não exista um exame genético capaz de diagnosticar o transtorno de personalidade borderline, o estudo representa um importante avanço para compreender por que algumas pessoas desenvolvem a condição e outras não, mesmo quando expostas a experiências semelhantes.