Andrew Garfield não é estranho a interpretar homens que enfrentam crises espirituais profundas, já tendo vivido papéis como um padre jesuíta do século XVII em Silêncio, o condecorado Desmond Doss em Hacksaw Ridge e o televangelista Jim Bakker em The Eyes of Tammy Faye. Agora, no filme A Revolta, dirigido por Paul Greengrass, o ator britânico de 43 anos retoma esse terreno espiritual, interpretando Ploughman, um simples agricultor envolvido na Revolta dos Camponeses de 1381.
Porém, desta vez, a jornada de seu personagem é marcada pelo afastamento entre Deus e um sistema religioso que, segundo Garfield, tem distorcido o cristianismo para servir ao poder e à riqueza. Em entrevista ao The Christian Post, o ator premiado com o Globo de Ouro explicou que “o que Ploughman vive é uma espécie de desmonte de uma forma bastardizada do cristianismo sob a qual ele viveu, e que tem sido opressora para seu povo”.
Em um momento impactante do filme, após testemunhar uma violência brutal, vale lembrar que o longa da Focus Features é classificado como “R” por cenas fortes, Ploughman questiona, de forma desolada: “Onde está Deus em tudo isso?”. Essa dúvida reflete a dificuldade do personagem em conciliar a bondade de Deus com o uso indevido da religião para justificar injustiças.
Contexto histórico e a luta contra a autoridade divina do rei
Ambientado na Inglaterra de 1381, o filme mostra como contestar a autoridade do rei, tido como porta-voz de Deus, era considerado traição, com consequências severas. Garfield destacou que “viver sob a ameaça de uma sociedade hierárquica, onde questionar que o rei é a voz de Deus, é praticamente um ato de traição”. Essa situação cria um sentimento de aprisionamento e a percepção de que algo está errado.
The Uprising, que estreia nos cinemas em 10 de setembro, se passa no período pós-Peste Negra, que dizimou cerca de metade da população inglesa, deixando um rastro de sofrimento, pobreza e revolta. Quando a corte do jovem Rei Ricardo II impõe impostos pesados aos pobres, a revolta explode, com dezenas de milhares marchando em direção a Londres.
Paul Greengrass, conhecido por dirigir vários filmes da franquia Bourne, apresenta Ploughman como um líder improvável, quase um Robin Hood, que se une a figuras históricas como Wat Tyler (interpretado por Cosmo Jarvis) e John Ball (Jamie Bell) na luta por justiça contra governantes que afirmam sua autoridade em nome de Deus. Conforme Ploughman começa a questionar esses líderes, ele percebe que sua versão do cristianismo também está distorcida.
Uma fé resgatada na natureza e na comunidade
Garfield ressaltou a importância das tradições espirituais mais antigas da Inglaterra, que buscavam Deus em todas as coisas, na natureza, nas árvores, no vento, nos ancestrais e nas pessoas ao redor. “Sinto que há uma espécie de emergência espiritual acontecendo para o personagem durante a história”, afirmou. Para ele, o cristianismo foi sequestrado por aqueles que desejam acumular poder, dinheiro, influência e status, e o filme mostra uma desconstrução dessa realidade.
Para Greengrass, a religião e seu uso abusivo são inseparáveis da história da Inglaterra medieval, época em que a fé moldava a compreensão das pessoas não apenas sobre Deus, mas também sobre justiça, autoridade política e seu lugar na sociedade. “As pessoas eram extremamente religiosas naquela época”, disse o diretor de 71 anos. “Mas os problemas são os mesmos”.
Ele explica que “as pessoas entendiam que o mundo era profundamente injusto, que os ricos acumulavam as riquezas e excluíam os comuns, e isso era uma ofensa à lei de Deus, que representa justiça e equidade”.
O interesse de Greengrass pela Revolta dos Camponeses se intensificou durante a pandemia de COVID-19. Ele notou semelhanças entre o caos social pós-Peste Negra e o mundo moderno, marcado pela desconfiança nas instituições. “De certa forma, essa é a situação em que nos encontramos hoje”, afirmou. “Um dos motivos para fazer este filme é que os temas são muito contemporâneos”.
O diretor acrescentou: “Não estou fazendo um ponto político, mas acredito que a maioria das pessoas, independentemente de sua posição política, sente que o mundo não é tão justo quanto deveria ser, e isso de alguma forma reflete a lei de Deus. O homem fez um acordo diferente daquele que deveríamos ter, e isso animou as pessoas naquela época, assim como hoje”.
Personagens femininas e a busca por justiça
O filme também explora a tensão entre fé e injustiça na personagem Alyce, interpretada por Thomasin McKenzie. Alyce é uma jovem camponesa fictícia que representa as mulheres que participaram da revolta. Ingênua e determinada por vingança, ela entra para a igreja acreditando que ali encontraria proteção, mas acaba traída.
“Ela entrou para o convento pensando que encontraria segurança, porque a peste devastava a Inglaterra”, explicou McKenzie. “Era essa ou a miséria. As opções para uma mulher naquela época eram poucas”.
“Ela foi traída pela igreja que acreditava que a protegeria, e essa traição motivou sua raiva. A relação dela com Deus e com a igreja se tornou muito amarga e marcada pela decepção”, complementou a atriz.
No entanto, a vingança não traz a Alyce o que ela esperava. Após liberar parte de sua fúria, sua personagem se vê diante de uma questão inquietante: “E agora, o que vem depois?”.
Para McKenzie, a resposta para Ploughman, Alyce e os demais revoltosos está na possibilidade de construir “uma nova comunidade” baseada no amor.
Fé, desestruturação e esperança
Greengrass também quis abordar a ideia de “desabrigamento espiritual” no filme, tema relevante para a cultura atual. A narrativa sugere que a fé pode sobreviver mesmo com a desconstrução das estruturas que a deturpam e monopolizam.
“As pessoas geralmente se sentem perdidas e desamparadas diante das grandes forças que mudam nossa sociedade”, afirmou o diretor. “E buscam na fé um porto seguro em um mundo tempestuoso”.
“Isso era verdade naquela época e continua sendo hoje”, concluiu. (Com informações de Leah MarieAnn Klett – Christianpost)
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