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Caroço de algodão na nutrição bovina é assunto do Agro de Primeira MT

A alimentação bovina representa cerca de 70% dos custos da criação. Por isso, a busca por alternativas mais baratas e efetivas é constante. Entre elas, o caroço de algodão surge como alternativa.

Servido nas formas de torta e de farelo, é rico em nutrientes sendo muito utilizados na formulação de rações. E traz as seguintes vantagens:

  • Fonte rica em proteínas: a torta de algodão possui alto teor de proteínas, que contribui para o desenvolvimento muscular, a produção de leite e o crescimento dos animais;
  • Contribui para melhor eficiência alimentar e nutricional: a inclusão de torta de algodão na dieta contribui para uma maior eficiência alimentar dos animais, resultando em melhor produtividade e menor custo de alimentação
  • Versatilidade: a torta de algodão pode ser incorporada em diferentes dietas e fases dos ruminantes, tanto de animais para corte como para animais leiteiros, proporcionando flexibilidade na formulação de rações

Com sede em Mato Grosso, a Sol do Cerrado Commodities é uma das pioneiras em oferecer o caroço de algodão para alimentação do gado de corte.

A empresária Taniely Almeida, líder da empresa, é a entrevistada da semana do podcast Agro de Primeira MT. Ela conta que passou a trabalhar numa fazenda de algodão e, ao saber do uso do caroço na alimentação do gado de leite em Minas Gerais, viu oportunidade de fazer o mesmo para o gado de corte no maior produtor de algodão do país.

“Eu vi uma oportunidade que era muito pouco explorada no mercado. E para os agricultores, o caroço de algodão era um produto que nem tinha destinação, Não tinha os estudos que tem hoje”, lembra Taniely.

No ano passado, a Embrapa Algodão conduziu um estudo técnico-científico que comprova a viabilidade do uso do caroço de algodão na alimentação animal.

Caroço de algodão é usado como fonte de proteínas para alimentação animal. (Foto: Estudo Embrapa Algodão)

O trabalho foi encomendado pela Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), em parceria com a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) e a Faped (Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento).

A Abrapa informou que “o trabalho destacou o alto valor nutricional desses coprodutos — obtidos a partir do caroço de algodão, subproduto da separação da pluma — e seu potencial para reduzir custos, elevar a produtividade e fortalecer a sustentabilidade na pecuária brasileira”.

Um dos responsáveis pelo estudo foi o pesquisador em Fibras e Biopolímeros da Embrapa Algodão, João Paulo Saraiva Morais. Ao longo de um ano, a equipe de pesquisa analisou cerca de 150 estudos científicos para embasar a elaboração do relatório final.

“O objetivo foi esclarecer, com base científica, que esses ingredientes são seguros e eficientes quando usados corretamente”, afirmou João Paulo.

O Primeira Página procurou a Embrapa Algodão e falou com os zootecnistas Frederico Olivieri Lisita e Manoel Francisco de Souza, que também participaram do estudo.

Bois comem torta de caroço de algodão em confinamento. (Foto: estudo Embrapa Algodão)
Bois comem torta de caroço de algodão em confinamento. (Foto: estudo Embrapa Algodão)

Eles disseram que o fornecimento do caroço de algodão inteiro (não moído) é o mais indicado, pois assim a grande quantidade de óleo que ele contém é metabolizada de forma mais lenta e eficiente.

Eles explicam que as diferenças entre caroço, torta e farelo:

  • Caroço de algodão: é um coproduto obtido durante o descaroçamento do algodão nas algodoeiras. Nas unidades de processamento (esmagadoras), o línter (fibra residual) pode ser parcial ou totalmente removido.
  • Torta de caroço de algodão: no processo tradicional, os grãos são prensados em filtro-prensa para extração do óleo, gerando a torta. Este produto, resultante do caroço deslintado e prensado, mantém teores residuais significativos: cerca de 9% de óleo e 30% de Proteína Bruta (PB).
  • Farelo de caroço de algodão: para se obter o farelo, além da moagem, realiza-se uma extração por solvente, resultando em um produto com teores reduzidos de óleo (aproximadamente 1,5%) e maior concentração proteica (cerca de 40% de PB).

Cuidados no manejo do caroço do algodão

O estudo, no entanto, faz um alerta, também pontuado por Taniely Almeida. O da necessidade de uso do produto apenas com supervisão de profissionais capacitados.

Isso porque, segundo os pesquisadores, “é crucial balancear a dieta considerando o elevado teor de óleo do caroço de algodão, uma vez que o limite seguro de ingestão lipídica para ruminantes é de 7%.”

Frederico e Manoel afirmam que, com o manejo correto, esse tipo de alimentação não interfere no gosto da carne bovina.

“Quando utilizado na proporção correta, observando o balanço nutricional, não há alterações no gosto da carne bovina. Altas proporções (acima de 35%), no entanto, podem causar alterações”, dizem.

Eles também alertam que há restrições para alguns tipos de animais.

“O seu uso é contraindicado para machos reprodutores devido à presença de gossipol, um composto fenólico que pode causar infertilidade. Também não é recomendado para bezerros, pois seu rúmen ainda não está totalmente desenvolvido para processar o alimento de forma segura”, afirmam.

Quanto à prenhez, “se respeitando os limites de fornecimento o caroço de algodão não causa problema”.

Taniely Almeida é a entrevistada do Agro de Primeira MT onde fala sobre caroço de algodão como nutrição alimentar para bovinos.

Sustentabilidade

Além dos benefícios econômicos e nutricionais, o uso do caroço do algodão contribui para um sistema de produção mais sustentável. A valorização desses coprodutos reduz o desperdício, amplia o aproveitamento da biomassa do algodão e diminui a competição com alimentos destinados ao consumo humano. Outro diferencial é a presença de ácidos graxos insaturados, que podem melhorar o perfil lipídico e o valor nutricional do leite.

“O farelo de algodão é o terceiro ingrediente proteico mais produzido no mundo para uso em dietas animais, podendo substituir parcialmente outros ingredientes devido ao seu alto teor de fibra, em torno de 28%, e níveis de proteína, que, em média, são de 40% e podem chegar a 55%. Esses números evidenciam o potencial da torta e do farelo, especialmente em regiões onde há limitação de outras fontes proteicas ou onde se busca diversificar as fontes de proteína na alimentação animal”, destaca Daniel Furlan Amaral, Diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Abiove.

Conclusão do estudo

O estudo da Embrapa Algodão encerra com a seguinte conclusão:

“Tanto o caroço, a torta e o farelo de algodão podem substituir parcial ou totalmente o farelo de soja e o DDG/DDGS (distillers dried grains/distillers dried grains with solubles), principalmente em áreas onde o cultivo do algodão e/ou agroindústrias de processamento estão presentes em maior escala, gerando os subprodutos referidos e disponibilizando-os para os mercados pecuários locais com preços competitivos,
podendo contribuir para a redução dos custos das dietas dos animais, a partir de formulações orientadas por especialistas que buscam atender os princípios nutritivos e saúde dos animais ao respeitarem os limites de inclusão destes subprodutos das dietas.”

Os pesquisadores ouvido pelo PP recomendam um limite:

“A inclusão de até 20% de caroço de algodão na dieta de bovinos não causa nenhum distúrbio metabólico.”

Lei aqui o relatório completo do estudo científico.

Safra 2025/2026

Mato Grosso é o maior produtor de algodão do país, respondendo por 71% de todo o volume produzido nacionalmente.

De acordo com o 12º levantamento da safra divulgado pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o estado colheu 6,92 milhões de toneladas de algodão em caroço e pluma em 2025, um crescimento de 8,3% em relação à safra anterior, que totalizou 6,39 milhões de toneladas.

A Abrapa divulgou, neste mês, o primeiro relatório da safra 2025/26. A área plantada no Brasil deve recuar 5,5%, somando 2,052 milhões de hectares. A redução está ligada a ajustes feitos pelos produtores diante das condições de mercado e dos custos de produção.

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