Um estudo conduzido há 17 anos em Mato Grosso do Sul está no processo de mudar a forma como a guavira é produzida no estado. A pesquisa é coordenada pela Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) e tem como objetivo ampliar a produção de mudas, incentivar o cultivo organizado da fruta nativa e diminuir a coleta em áreas naturais do Cerrado.
A pesquisa foi mostrada no programa +Agro, da TV Morena, na última sexta-feira, 23, em reportagem de Endrio Francescon e Chico Gomes.
Conhecida em outras regiões do país como gabiroba, a guavira, fruta nativa do Cerrado, é rica em vitamina C e se destaca pelo alto valor nutricional. Segundo a pesquisadora da Agraer, Ana Ajala, os indicadores da fruta superam os de culturas amplamente consumidas no Brasil.
“A guavira tem grau Brix (unidade de medida de sólidos solúveis totais) maior até mesmo que o da uva, o que indica alto nível de doçura. Além disso, possui mais vitamina C do que a laranja”, explica Ana.
Início da pesquisa
A expansão da pecuária e das lavouras de soja e milho reduziu áreas naturais do Cerrado ao longo dos anos, o que afetou diretamente a ocorrência da guavira em ambientes nativos.
Diante desse cenário, a Agraer iniciou, em 2007, pesquisas focadas na reprodução da planta, na produção de mudas e no desenvolvimento de modelos de cultivo que possam ser adotados por produtores rurais.
“A gente trabalha produzindo mudas de guavira e ensinando produtores e comunidades tradicionais a fazerem suas próprias mudas. Esse é o principal resultado do nosso trabalho. Se queremos preservar a guavira, precisamos produzir mudas”, afirma Ana.

A propagação da guavira é o principal foco da pesquisa. Para isso, a equipe da Agraer desenvolveu métodos simples, que facilitam a produção de mudas em viveiros rurais e comunitários.
A difusão do cultivo também conta com o apoio de produtores e técnicos locais. A agroflorestora Elida Aivi, moradora da Serra da Bodoquena (MS), participa do trabalho de multiplicação da cultura no estado.
Produção da guavira
O processo de produção das mudas começa com a retirada da polpa da fruta e a separação das sementes. Em seguida, elas são plantadas em recipientes com mistura de terra e areia. Para aumentar a chance de germinação, duas sementes são colocadas em cada recipiente. As mudas permanecem no viveiro até atingirem o tamanho ideal para o plantio em campo.
Segundo os pesquisadores, a guavira pode levar até três anos para iniciar a produção de frutos. Mesmo assim, a planta apresenta boa adaptação quando cultivada junto a outras espécies nativas e culturas agrícolas, em sistemas agroflorestais (cultivo integrado).
Com os resultados da pesquisa, a Agraer passou a incentivar o cultivo planejado da guavira como alternativa à coleta em áreas nativas. A proposta é incluir a fruta em projetos de restauração ambiental e em propriedades rurais que buscam diversificar a produção.
“A ideia é levar esse conhecimento para diferentes regiões do Estado. Não podemos continuar apenas coletando a guavira nativa. Se isso acabar, não teremos mais alternativa”, alerta a pesquisadora.

Além do aspecto ambiental, o projeto busca estruturar uma cadeia produtiva para ampliar o uso da guavira na alimentação, em pequenos empreendimentos e em atividades ligadas ao turismo rural.
O trabalho desenvolvido pela Agraer também gera impacto social e ambiental. Ao estimular o cultivo da guavira, a pesquisa contribui para a conservação da espécie e cria novas oportunidades de renda para produtores rurais.
“A partir do momento em que as pessoas veem casos de sucesso com a guavira, percebem que é um fruto local, de fácil cultivo e com grande potencial. Isso estimula novos produtores a aderirem”, destaca Ana.

Com a continuidade dos estudos e a ampliação das parcerias, a expectativa é fortalecer o cultivo da guavira em Mato Grosso do Sul e garantir a preservação da espécie no Cerrado.
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